Que a cultura cabo-verdiana está enraizada na região de Nova Inglaterra, particularmente na zona do Cape Cod, é um facto comprovado atravês das várias manifestações culturais que, sempre aconteceram espontaneamente e que nos últimos tempos têm sido devidamente organizadas.
Contudo em termos da preservação da memória colectiva cabo-verdiana, muito está ainda por se fazer, para que a geração vindoura não deixe de festejar, desde as antigas celebrações do São João, passando pelas mais recentes como Nho São Paulinho em Carver, até à era da modernidade com o Festival musical de Onset com uma mescla de músicas tradicional e contemporânea cabo-verdianas.
A criação de infra-estruturas para o registo e conservação dos vários aspectos da cultura e história de Cabo Verde, é essencial para essa mesma preservação.
Cape Cod é um dos berços da imigração cabo-verdiana nos EUA. Aí chegaram os primeiros crioulos que, após a odisseia da baleia, optaram para uma segunda aventura: enfrentar os duros campos de cranberry bogs, actividade a qual muitos dos descendentes ainda se encontram ligados quer na cultura ou na indústria da transformação das famosas framboesas.
A ponte que separa os cabo-verdiano-americanos dos da última leva de imigrantes, vai, aos poucos, desaparecendo. Essas duas gerações de cabo-verdianos compartilham os mesmos centros, comungam as mesmas actividades, escutam a mesma música e provam os mesmos pratos.
Os cabo-verdianos descendentes que povoam, na sua maioria, essa vasta região de Cape Cod têm mostrado um interesse crescente sobre a memória dos seus antepassados e as lembranças dos haveres que transportaram nos porões dos navios baleeiros e dos velhos veleiros que cruzaram o oceano, escapando à fome e em busca de uma vida melhor.
No passado domingo, o Onset VFW (centro de veteranos cabo-verdiano americanos), acolhe um leilão de artigos vários, cujo fundo se reverte para a criação do “ Oak Grove Cape Verdean Cultural Center” em Onset.
O objectivo do centro é, guardar a colecção de artefactos pertencentes a esta vasta população, uma das mais antigas, que habita a região do sudeste de Nova Inglaterra.
Por outro lado, o referido centro servirá de palco de recepção a entidades oficiais que visitam aquela região. Funcionará como ponto de encontro das diferentes gerações para as mais diversas actividades.
Servirá de salas de aulas de crioulo e português, educação de adultos e para aulas de cidadania. Projectos para os quais o Bridgewater State College já se mostrou disponível a colaborar.
O edifício onde vai acolher as instalações do referido centro cultural, funciona, neste momento, como “Cape Cod Child Care”. Trata-se de um histórico edifício que serviu de sala de aulas para filhos de imigrantes cabo-verdianos como Maria Vieira Rose e Mitchie Costa.
Apesar dos seus 94 anos, Maria Rose mantem-se lúcida e recorda-nos a sua infância. Os tempos difíceis, mas bons tempos. É claro que não havia as comodidades como as de hoje. Não havia o conforto do sistema de aquecimento, não havia transportes rápidos e acessíveis como hoje, mas realça o “Djunta Mon” crioulo.
“Quando matávamos uma vaca ou um porco, todos se juntavam para comer.
Fazíamos mandados e tínhamos que voltar antes que o cuspo, deitado ao chão pelos nossos pais, secasse. Aprendíamos a tomar benção dos mais velhos”.
Maria Rose se recorda que foi ao centro da cidade de Boston, pela primeira vez, aos 17 anos.
Enfim um rol de tradições que a anciã se recorda com saudades.