Um cantinho pequeno demais para acolher este pedaço de Djabraba, que foi o acto de lançamento do livro de José Galvão de Sousa, conhecido por Fuca.
Todos queriam estar presentes no restaurante Cantinho em Pawtucket onde a morabeza das gentes da Brava veio ao de cima, em forma de música e poesia recriando o típico ambiente bravense, num regresso ao passado das tocatinas e serenatas. A obra intitulada “As minhas distracções em crioulo”, escrita no crioulo original de Cabo Verde, é uma compilação do professor Benvindo Leitão.
José Galvão de Sousa, Fuca, nasceu na Brava em 1924 e faleceu em Pawtucket em 1992. Quando chegou a este país, trabalhou, duramente, em barcos petroleiros americanos e depois numa fábrica de papel.
“Era um homem simples que tinha penas a Quarta Classe, mas muito curioso, gostava de saber e sempre tratou de tudo quanto fazia, o melhor que pudesse”, descreve o autor do livro, caracterizando as mornas de Fuca de uma admirável profundidade poética e lírica, apesar de não ter muitos estudos. Curisosamente e apesar de seus poemas serem totalmente musicados e de preencherem mais de 100 páginas do livro, não figuram em nenhum trabalho discográfico.
Fuca começou a compôr mornas aos 18 anos. Aos 24 anos teve que emigrar para os EUA. Daí as suas mornas terem passado despercebidas. Nos EUA continuou a escrever, tendo recebido muito apoio de compositores musicais como o caso de Francisco “Falai” Azevedo, Augusto Leitão, Nho Hilário Galvão, entre outros.
Aliás Benvindo Leitão aproveitou a ocasião para render uma homenagem póstuma a dois desses compositores musicais das letras de José Galvão de Sousa, como Hilário Galvão e Rodrigo Peres e ao irmão do poeta Joaquim Galvão.
O evento acabou por mostrar mais uma peça deste mosaico cultural que compõe o arquipélago de nove ilhas habitadas. No sábado 6, Cantinho era um pedaço de Djabraba.
Numa reposição cénica de “Djabraba di um bês”, ouviu-se a declamação de poemas do Fuca, secundada da interpretação das respectivas mornas.
As oito sobrinhas do homenageado e mais alguns convidados, eram acompanhados por um grupo musical típico de 4 violões e 2 cavaquinhos, tudo à moda antiga de Djabraba.
Ângela Pesare é uma das sobrinhas que interpretaram as poesias-mornas do Fuca. Aprendeu com o pai que tocava e a mãe que cantava, “desde que eu conheci meu nome. Ela insistia que usássemos palavras da Brava e no crioulo antigo”, conta-nos Ângela citando o exemplo do termo “Biba” em vez de “Viva”, “Bencê” em vez de “Vencê”.
Cantavam em tocatina em casa ou em grupos e, às vezes, em serenatas sempre com a devida chamada de atenção da mãe que fazia questão de realçar que morna da Brava era diferente das demais de Cabo Verde.
Para Angela, está-se a tempo de gravação de um disco, porquanto “é agora que estamos mais maduros e damos mais valor às mornas da Brava”, manifestando-se esperançada na gravação de um CD para homenagear o tio e perpetuar seu nome no livro dos grantes poetas populares da Brava.
“Hoje sinto-me na Brava”, disse-nos no final do evento, Júlio Gomes, imigrante há 37 anos que vai à sua terra natal, matar saudades em cada dois anos e pergunta: “Onde estavam esta mornas? Escondidas na gaveta? Já é altura de quem sabe cantar morna de Brava-o que não é para qualquer um-alerta Júlio, gravar essas e outras mornas daquela ilha.
O autor do livro, Benvindo Leitão, ainda em tenra idade partira para Portugal e Espanha onde estudou teologia e filosofia. Os longos anos que leva da América, onde foi professor durante 21 anos, não esmorecem seu espírito bravense.
Aliás as Edições Nova Atlântica, que ele dirige, querem recuperar essa memória colectiva do povo da Brava, publicando obras de poetas da terra de Eugénio Tavares.
As Edições Nova Atlântida pretendem recuperar esses compositores e poetas bravenses. “Recolher essas mornas que ficaram perdidas por aí”, como as de “Nho Djoninho” João José Nunes e do filho Wilson, que sairão num outro volume.
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