De pés descalços. De Soncent para os grandes palcos. Admirada pelas estrelas de Hollywood como Madonna, exibiu com naturalidade a sua arte no Berklee College of Music em Boston, mas também passou por Fundonzinho o histórico bar dos crioulos em Boston onde muitos, hoje, orgulham-se de ter tomado um Johnnie Walker com aquela que viria a ser a estrela maior de Cabo Verde.
A cantora que viria a fazer dueto com estrelas de outro firmamento. De Salif Keita a Ismael Ló, os Kassav, Bonga, Caetano Veloso, Bonnie Raitt, até os actores e cantores italianos Gianni Morandi e Adriano Celentano, são dezenas os artistas nacionais e estrangeiros que compartilharam os palcos ou que gravaram ao lado da diva caboverdiana.
Aqui também na América, como em todo o mundo, (excepcionalmente neste país em que o comum do americano se preocupa quase que exclusivamente com os seus), a Diva dos Pés Descalços também é referência de um país e de um povo. Não raras vezes quando o caboverdeano tenta localizar o seu país, ouve o americano fazer esta comparação: “Ah, tu ês do país da Cesária”.
Por esta razão, a bandeira caboverdiana nas cidades que albergam um número considerável de patrícios está a meio haste, observando horas de luto em memória da artista que mais conseguiu levar a imagem das ilhas ao mundo.
A notícia correu célere. É que o estado de saúde da Cize, diga-se em abono da verdade não era o melhor nos último tempos, e sempre que se falava da cantora o povo ficava com o credo na boca. De Massachusetts e Rhode Island ao vizinho estado de Connecticut, Nova Iorque, Califórnia e Flórida, os telefones não param. Como se costuma dizer em cada casa uma pessoa, a notícia era recebida com pesar profundo e sentido dessa irreparável perda para a música caboverdiana.
Aqueles que se levantaram mais tarde ou que não dispõem dos serviços da internet eram informados pelo seu amigo, familiar ou conhecido: Morreu a Cesária Évora.
Todos têm algo a recordar. A sua primeira vinda à América quando ainda não era famosa, a sua actuação no Fundonzinho, o ponto de passagem obrigatória de Boston nos anos 80, a curiosidade de ver em palco aquela voz maravilhosa daquela senhora tímida, discreta e simples que não dispensava seu cigarro.
Por falar do cigarro, lembro-me de um episódio em pleno palco do Berklee College of Music em Boston em 1995. Vivia-se, até com um certa psicose, a lei que interditava fumar em locais públicos. Cize puxa de um cigarro, acende o isqueiro para o espanto da platéia mas que, ao fim e cabo, aceita o facto com a maior naturalidade. A estrela tinha esse direito excepcional.
Mas já nessa altura notava-se uma moderação da Cesária quanto aos copos. No camarim, a anteceder o show encontrava-me com Bau, Chico Serra, José Pereira e José Paris a quem entrevistei. Nessa noite, a Cize ofereceu-me um Hennessy enquanto bebia leite e comia frutas.
Pois é verdade. A Cize, pela sua humildade, viveu como o mais comum dos mortais que assumiu a sua condição de cidadã caboverdiana que não nasceu num berço de ouro. Fumava e tomava seus copos, enquanto ia espalhando a alma de um povo, sem ter a consciência da grandiosidade da sua arte e da dimensão que a sua figura representava para o seu país.
Pois ela confiava no seu empresário deixando tudo em suas mãos:
Cizé qual é a próxima digressão, quando vai gravar? Perguntei-lhe e ela: “Não sei, pergunta ao Djô. Ele é que sabe dessas coisas”.
Uma prova mais, de que a história de um país não se faz só com Doutores. Neste caso foi a voz da morna e coladeira a projectar o arquipélago no mundo.
Me uno al pésame mundial por esta lamentable pérdida. Descanse en paz la señora Cesaria Évora, una de las cantantes más representativas de la Africa actual. Con respeto desde Playa del Carmen, México.